sábado, 8 de abril de 2017

Sobrevivente do dia a dia



Hoje, voltando do serviço para a casa, bem acomodado no busão, fone no ouvido, quando me deparo com um garotinho negro, com aparência de uns 7, 8 anos, vendendo balas.
Confesso que, embora seja uma constante, a venda de mercadorias nos transportes públicos urbanos, me deixou meio chocado, justamente por se tratar de um garotinho negro.
Num primeiro momento percebi que muitos a li o questionaram, sobre ele estar trabalhando ali e daquela forma, outros sobre onde estaria seus pais.
Em meio a tantas indagações, ele respondia a todos de modo simples e objetivo.
Percebi também que, foi gerado então ali no ambiante, um "espírito de indignação, e solidariedade'.
Pude eu então perceber que, todos que o questionaram, colaboraram com ele, quer seja comprando as balas que ele vendia ou até mesmo lhe dando alguns trocados.
Logo então me percebi fazendo uma série de perguntas para eu eu mesmo, com vários porquês, e tentando encontrar ou culpar alguém.
Me vi logo com os olhos embargados, e, já não tentando culpar os pais ou quem quer que seja, não que estes não tenha suas responsabilidades, mas porque estes também possam ser outras vítimas de seu sistema cruel e perverso.
E oque chamo de sistema? " o "Sistema" somos todos nós, quer seja colaborando ou simplesmente ignorando, quer seja ajudando ou negligenciando.
A coisa coisa é tão sinistra e perversa que, imaginei poxa se colaboro comprando ou doando, eu de certa forma estimulo este, seus pais, seus irmãos entre tantos outros a continuar dessa forma.
Se não os ajudo, posso também estar colaborando para mante-los ai presos nesta condição.
Quando sai deste "transe" percebi que estava ouvindo justamente a música: Mágico de oz, dos Racionais MCs.

"Aquele moleque, que sobrevive como manda o dia a dia
Tá na correria, como vive a maioria
Preto desde nascença, escuro de sol
Eu tô pra vê ali igual, no futebol
Sair um dia das ruas é a meta final
Viver decente, sem ter na mente o mal
Tem o instinto que a liberdade deu
Tem a malicia, que cada esquina deu
Conhece puta, traficante e ladrão
Toda raça, uma par de alucinado e nunca embaçou
Confia neles mais do que na polícia
Quem confia em polícia? Eu não sou louco
A noite chega e o frio também
Sem demora, ai a pedra
O consumo aumenta a cada hora
Pra aquecer ou pra esquecer
Viciar, deve ser pra se adormecer
Pra sonha, viajar, na paranoia, na escuridão
Um poço fundo de lama, mais um irmão
Não quer crescer, ser fugitivo do passado
Envergonhar-se se aos 25 ter chegado
Queria que Deus ouvisse a minha voz
E transformasse aqui num Mundo Mágico de Oz"

Cara é tudo muito louco, ver a realidade se transformando em arte e ver a arte imitando a realidade.
E que realidade cruel...

Eu também queria que Deus ouvisse a minha voz, e transformasse aqui num mundo Mágico de Oz.

Elieser Santos